Trabalho suspenso e risco à saúde: pescadores cobram ações do poder público após contaminação de praia no Subúrbio de Salvador

Polícia Federal abre inquérito para apurar poluição na Praia de São Tomé de Paripe Há mais de dois meses, os pescadores e ambulantes da região da praia ...

Trabalho suspenso e risco à saúde: pescadores cobram ações do poder público após contaminação de praia no Subúrbio de Salvador
Trabalho suspenso e risco à saúde: pescadores cobram ações do poder público após contaminação de praia no Subúrbio de Salvador (Foto: Reprodução)

Polícia Federal abre inquérito para apurar poluição na Praia de São Tomé de Paripe Há mais de dois meses, os pescadores e ambulantes da região da praia de São Tomé de Paripe, localizada no Subúrbio de Salvador, estão impedidos de trabalhar devido a uma contaminação da praia com produtos químicos. Manchas amarelas e azuis foram observadas na faixa de areia e na água do mar, em fevereiro. Além disso, diversos animais foram encontrados mortos na área. Desde então, a comunidade sofre os impactos da contaminação, que impõe riscos à saúde, e denuncia a falta de apoio do poder público. Lideranças da localidade, que abriga cerca de 600 famílias, ressaltam que os órgãos públicos têm sido acionados, mas ainda não apresentaram medidas efetivas para mitigar a situação. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia Em entrevista ao g1, o presidente da Associação de Pescadores e Marisqueiras do Subúrbio, Reinaldo Jorge Cirne, afirmou que os pescadores têm buscado alternativas para seguir trabalhando. Cerca de 1200 profissionais compõem a entidade e, diante do cenário, alguns passaram a recorrer a outros serviços para obter renda. "Esse produto tóxico acaba com tudo, alguns pescadores estão catando lata, papelão, fazendo reciclagem para sobreviver", detalha. Manchas azuis e amarelas seguem na praia de São Tomé de Paripe. Arquivo pessoal Outros tentam manter a pesca como atividade principal, escolhendo outros pontos para o trabalho. Ainda assim, a maioria não consegue vender o pescado na Feira de Paripe, onde costumavam comercializar o produto, devido ao medo da população quanto à contaminação. "A gente não tem um apoio governamental. Como representante, fico às vezes com os olhos cheios de água de ver os pescadores chegarem lá [na associação] dizendo que pegaram o peixe até em outro local para tentar vender na feira de Paripe, que é próxima [daqui], e o pessoal não acredita". Segundo Luiz Carlos Gonçalves Campos, que atua como líder comunitário em São Tomé de Paripe, a situação também é grave para os barraqueiros da praia, além de ambulantes e permissionários. Isso porque as atividades de turismo na região reduziram após a contaminação e, por consequência, esses trabalhadores não têm como atuar no comércio tradicional nas faixas de areia. "A praia em si já não tem movimento nenhum. O pessoal vinha, vendia seu salgado, seu peixe, sua cerveja, seu queijinho. Essas pessoas, sim, estão totalmente sem nenhum recurso", denuncia. Apoio da comunidade Para tentar mitigar a situação, o líder comunitário conta que os moradores da região têm organizado pequenos eventos em largos do bairro, onde os comerciantes podem conseguir alguma renda. "Nós já fizemos duas festas, porque [com elas] os comerciantes já conseguem ganhar seu dinheirinho, vender sua cerveja, um tira-gosto", exemplifica Campos. O caso é investigado pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), que indicou a presença de Nitrato (NO₃) e Cobre (Cu) na praia por meio de um laudo. Segundo o órgão, a contaminação está ligada ao trabalho de estocagem e à movimentação de granéis sólidos no Terminal Itapuã, atualmente gerenciado pela Intermarítima. As atividades no terminal estão interditadas desde o mês de março, quando a presença dos produtos químicos foi constatada. Manchas azuis e amarelas seguem na praia de São Tomé de Paripe. Arquivo pessoal O que dizem as empresas envolvidas Por meio de nota, a Intermarítima alegou que não movimenta carga que tenha relação com as substâncias encontradas na praia, apontando a Gerdau — antiga companhia que geria o terminal — como responsável pela contaminação. Também por meio de nota, a Gerdau informou que o terminal foi vendido em 2022 e que, desde então, a responsabilidade pelo local é da nova gestora. A empresa alegou ainda que as análises técnicas não apontam as causas da contaminação, que não podem ser conectadas à companhia. Cobrança ao poder público Conforme relato das lideranças locais, poucas ações governamentais foram realizadas na comunidade de São Tomé de Paripe desde os primeiros sinais de contaminação da praia. A última ação direta do poder público na região foi no dia 8 de abril, por meio das secretarias municipais de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esportes e Lazer (Sempre) e Especial do Mar (Semar), quando cestas básicas foram distribuídas aos moradores impactados. Apesar disso, os moradores apontam que não há ações realizadas pelos governos estadual e federal na localidade. Para eles, a demora na apresentação de um laudo definitivo sobre as responsabilidades quanto à situação também é uma espécie de abandono. "Foi uma vez só e olha há quanto tempo. E o pior não é isso: por que que não se sai o laudo técnico do Inema? Que até o Ministério Público vem ajudando no pedido", enfatiza Reinaldo Jorge. Moradores denunciam morte de mariscos e peixes na praia de São Tomé de Paripe. Reprodução/TV Bahia O líder comunitário, Luiz Campos, afirmou que negocia a realização de mais eventos na comunidade para ajudar os comerciantes, enquanto Jorge busca auxílio do governo do estado por meio da Bahia Pesca — empresa estatal do setor. Por meio de nota, o Inema informou que encaminhou ofícios à Superintendência do Patrimônio da União na Bahia (SPU/BA) e à Prefeitura Municipal de Salvador sobre a situação na região, solicitando aos órgãos a gestão e ordenamento do local para "a efetiva implementação da restrição de acesso e outras que entendam cabíveis". Atualmente, o órgão ambiental investiga a presença dos produtos químicos em espécies marinhas e aponta que o material que causou a contaminação é antigo. "Não era necessariamente o material que estava sendo transportado eventualmente. [...] Acumulou, manteve aquele material, não cuidou corretamente, não remediou aquela área e [ele] tem que ser tirado dali", aponta o diretor-geral do órgão, Eduardo Topázio. Por sua vez, a Prefeitura de Salvador afirmou que tem uma atuação limitada na área, que pertence à União. Apesar disso, a gestão municipal ressaltou que tem mantido um diálogo permanente com a comunidade. Em nota, a Secretaria de Patrimônio da União (SPU) alegou ser um órgão patrimonial e não ter capacidade técnica para apurar danos ambientais. Além do Inema, a situação também é investigada pelas polícias Civil e Federal. Em nota, a PF informou que um inquérito policial foi aberto para averiguar o caso, mas ressaltou que não há previsão para a conclusão da perícia. O g1 também entrou em contato com a Polícia Civil para mais detalhes da investigação no local, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. O caso é acompanhado pelo Ministério Público. Riscos à saúde Segundo especialistas, as substâncias químicas encontradas no local representam riscos à saúde da população. Moradores das comunidades ao redor da praia apontam que há pouca orientação da população e sinalizações na praia, que não chegou a ser interditada após a contaminação. Segundo análises da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), os produtos químicos encontrados podem causar problemas dermatológicos, como irritações cutâneas e gastrointestinais. Por meio de nota, o órgão informou que equipes da Vigilância em Saúde têm atuado na região e monitorado os novos casos de saúde na localidade. Casos suspeitos de intoxicação por exposição a produtos químicos chegaram a ser notificados na região e são acompanhados pela pasta. A SMS afirmou ainda que equipes especializadas vêm realizando ações in loco para orientar trabalhadores e moradores da comunidade quanto aos riscos de contaminação. Até que as análises técnicas sejam concluídas, a secretaria recomenda que a população evite: consumir peixes e mariscos capturados na área; contato direto (banho ou pesca) com a água do mar na região sob investigação; busca por assistência médica imediata em caso de aparecimento de manchas na pele, coceira, náuseas ou dificuldades respiratórias após contato com a área contaminada. Já a Secretaria de Saúde do Estado (Sesab) alegou que não houve registro de quaisquer internamentos relacionados à intoxicação de banhistas. O órgão também enfatizou que placas de advertência foram instaladas na região pelo Inema. LEIA MAIS: Avô de crianças que morreram em incêndio é preso ao chegar no aeroporto de Salvador Jovem é preso em flagrante suspeito de esfaquear companheira ao flagrar traição no interior da Bahia Mais de 130 cidades da Bahia estão com alerta de chuvas, segundo Inmet Veja mais notícias do estado no g1 Bahia. Assista aos vídeos do g1 e TV Bahia 💻